Jão lança álbum após período de reclusão e perda do pai

Neste domingo (26), Jão lançou seu novo álbum “Memórias Póstumas” com um evento no Vale do Anhangabaú em São Paulo. O álbum, que é o quinto de sua carreira, foi composto e inspirado num período de interrupção dos shows e recolhimento da vida digital de Jão, marcado pela perda de seu pai — que está presente na primeira faixa, “Catedral” (que reflete sobre a morte a partir de sua partida) e em outros pontos do disco. “É algo que ainda não processei e acho difícil que aconteça, porque meu pai ainda é muito presente. E as pessoas sempre têm receio de falar sobre ele comigo, mas elas não sabem que eu adoro falar sobre ele, mantê-lo vivo.

O pai do cantor Jão, Carlos Alberto Balbino (conhecido como Carlinhos Rebeca), morreu em 3 de junho de 2025, aos 61 anos, após sofrer uma arritmia no interior de São Paulo. 

Esgotados os quatro elementos (terra, ar, água e fogo) associadas conceitualmente aos álbuns passados, o novo trabalho é, como o próprio Jão define, “uma história com começo, mas sem fim”. Mais complexa, mais aberta a interpretações.

O artista mudou as faixas até o último segundo antes da entrega. “Memórias Póstumas” não foi escrito de maneira linear. “Eu fiz as pazes com isso. São vários caquinhos, sentimentos que você ainda não sabe o nome e um monte de vômitos de palavras que você vai remontando e que, quando você se afasta, revelam a figura toda. A ordem deste disco está pautada em não achar uma solução para a maior pergunta dele”, comenta.

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Músicas

Ao apresentar a lista de faixas do álbum nas redes sociais, ele as definiu como “músicas sobre a vida, nem sempre como ela é”.  O título remete a “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, clássico de Machado de Assis (1839-1908) — a famosa dedicatória do romance, “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, aparece elipticamente nos versos da última faixa, a gótico-romântica — no sentido literário e no temático também — “Memórias Póstumas” (“tente não ser o primeiro a roer as frias carnes do meu corpo passageiro”).

Jão lança álbum após período de reclusão e perda do pai
Jão lança álbum após período de reclusão e perda do pai. Foto Agnews

Neste disco, a vida e a literatura são a mesma coisa. Quando comecei a escrever, eu precisava usar as palavras para dar novos significados às coisas”, diz Jão. Ele cita “Memórias Crônicas e Declarações de Amor”, de Marisa Monte, “MTV Acústico”, do Kid Abelha, e “Ray of Light”, de Madonna, entre as inspirações musicais desse período de composições ultrafértil, apesar de ser o que ele cita como “o mais sem método” entre todos os seus discos.

Tudo começou com frases e pela forma como eu estava quase vomitando elas, blocos e blocos de notas, com frases soltas como ‘já construí todos os cenários, e se não for com você?’ (em ‘O Arquiteto’). Algumas muito boas e outras péssimas. Foi um fluxo muito grande de pensamentos, que em outros discos, eu teria me censurado e pensado no que seria ‘perfeito’.  Mas combinamos que neste álbum seria diferente, escreveríamos o quanto quiséssemos, e quando estivéssemos mais centrados, iríamos editar e polir com muita delicadeza. Na nossa última conta, foram 68 músicas, que viraram 14.

Jão é autor de 13 das 14 canções do álbum, oito em parceria com Pedro Tófani, seu namorado e diretor criativo de seus shows. Pedro escreveu sozinho a belíssima “João”, com um texto sobre casal em idas e vindas, contemplando separação, que remete a mestres da cartografia sentimental popular brasileira (Roberto e Erasmo Carlos, Altay Veloso). “Contar pras famílias e descartar os nomes que pensamos para os nossos filhos: Maria, Francisco e o seu, que é o meu favorito”, canta Jão.

A religiosidade está presente não só nas letras, mas também em referências musicais do álbum. “Eu sempre fui uma pessoa muito espiritual, desde criança. E apesar de ter estudado a vida toda em uma escola franciscana e ter crescido com esses símbolos católicos, já passeei por muitas religiões. Não sei em busca de quê, sinceramente. Mas tem algo dentro de mim que tem fome pelo inexplicado, pelo oculto… e esses símbolos são marcados quase como uma programação dentro de uma criança do interior de São Paulo. A austeridade das figuras cristãs, da culpa, da obediência. Tudo isso tem muito a ver com uma relação pai e filho. E acho que a música foi a coisa que mais se aproximou desse sentimento que eu busco tanto”.

Jão também usou áudios dos pais e amigos, registrados no fim da última turnê. “Eu queria guardar isso em música. Pra que meus filhos entendam, conheçam a voz dele. E como a gente se fala de forma quase musical, foi bem natural encaixar isso nas músicas.

Memórias Póstumas” é o primeiro álbum que há mais de uma faixa escrita e produzida exclusivamente por Jão. Também é o primeiro álbum em que há uma faixa, “João”, onde ele não assina a letra — mas produz e toca todas as “teclas”. Confortável ocupando esse lugar, ele lamenta por demorar muito no processo. “É algo que eu gostaria de ter mais tempo para explorar. Adoro ser o dono das minhas coisas, sempre quero comemorar e sofrer por decisões que foram minhas, e não de outras pessoas. E esta faixa só existe porque foi feita pelo Pedro, que é a pessoa que divide a vida comigo, então meu ego deixou acontecer.