A cultura do cancelamento: Saiba de onde vem o hater

A cultura do cancelamento: de onde surge tanto ódio?
A cultura do cancelamento: de onde surge tanto ódio? Luisa Sonza sofreu ataques após morte do filho de Whindersson. Foto: Reprodução/Instagram

Muitas celebridades vêm se afastando das redes sociais por causa de ataques e ameaças virtuais. Luiza Sonza foi a última vítima dos “haters”. Culparam a gaúcha pela morte do filho de Whindersson e Maria Lina. A artista adiou o lançamento do próximo álbum e se dedicará a cuidar da saúde mental. A cultura do cancelamento virou rotina em sua carreira e abalou seu trabalho.

Outros casos se destacaram nos últimos tempos. Os ataques que a filha de Pocah sofreu enquanto a cantora estava no BBB. Aliás, a passagem de Karol Conká pelo programa como um todo também gerou muito hate. Rodolffo, Projota, Lumena, enfim, só do elenco do Big Brother os casos são diversos. Assim como ela, o “detox” das redes sociais está cada vez mais comum. Afinal, por que os ataques nas redes sociais aumentaram tanto?

Coordenador do Núcleo de Transtorno Bipolar da Holiste Psiquiatria, André Dória conta que a psicanálise ajuda a explicar esse fenômeno.

“A psicanálise já nos ensinou que, muitas vezes, precisamos eleger um mestre imaginário para justamente poder destruir a relação com ele. Quando aquele ou aquela que elejo como referência não satisfaz às minhas projeções, eu elimino. Cancelo. Como as redes sociais são uma profusão de ídolos para todos os ideais, trazem também a profusão do efeito reverso: o ódio pelo ideal frustrado”, explica.

Dessa forma, a relação do fã com o influenciador ou artista se torna frágil. Isso, porque a identificação aumentou consideravelmente com o advento das redes. Por exemplo, é possível acompanhar o que diversas personalidades fazem ao longo de todo o dia. Muito fácil se identificar e, da mesma maneira, tornar-se um hater dos mais assíduos.

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Não me representa!

De acordo com o psicólogo, o sonho de um mundo perfeito precede o cancelamento. O problema é que, apesar de intensa, essa relação de identificação é bastante frágil. Nas redes, há representantes de temas para todos os gostos: meio ambiente, casamento perfeito, família perfeita, neonazismo, puritanismo, sucesso profissional e muito mais.

“Ao decidir seguir uma celebridade que defende uma determinada causa, por exemplo, a relação de quem a segue é uma relação de representação. Uma ação ou mesmo palavra fora do que se espera de tal personalidade já transforma o sentimento de admiração em ódio. É aí que reside a fragilidade dessas identificações: elas só se sustentam quando o outro reflete o que eu penso”, detalha.

Deste modo, este ódio disseminado nas redes pode ser considerado um sentimento narcísico – ou seja, egoísta. “Como diz Caetano Veloso: Narciso acha feio o que não é espelho”, comenta o especialista.

Como lidar com o ódio nas redes sociais?

O uso da expressão detox indica que há uma intoxicação. Afinal, por que cada vez mais pessoas decidem se afastar das redes sociais? Segundo André Dória, existem inúmeras respostas possíveis, mas, a princípio, “estamos intoxicados pela velocidade dos tempos atuais”.

“As redes sociais são a tradução dessa aceleração, pulverizando as três etapas que guiavam nossa tomada de decisões: o tempo de ver, compreender e concluir. Hoje, já saltamos diretamente para a conclusão. O exemplo das fake news ilustra isso. Ao receber uma informação em sua rede social, muitas pessoas já passam adiante sem verificar nem refletir criticamente sobre a informação. Nesse sentido, a intoxicação é generalizada, não afeta somente artistas, cantores ou atletas”, aponta.

O profissional diz que não há uma fórmula mágica para lidar com os ataques virtuais. Aliás, é possível contar com bons advogados, bons psicólogos e a consciência sobre a volatilidade das identificações que sustentam a comunidade virtual. Outra dica para um uso saudável da internet é avaliar se ele se tornou um vício. “Talvez haja uma pista que sirva para nos orientar: quando perdemos a capacidade de escolha, nos vemos reféns do uso compulsivo”, alerta.

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