Salgueiro apresenta a sinopse de “Hutukara”, enredo que prega a luta dos Yanomami

Salgueiro apresenta a sinopse de “Hutukara”, enredo que prega a luta dos Yanomami
Salgueiro apresenta a sinopse de “Hutukara”, enredo que prega a luta dos Yanomami

O Salgueiro apresentou na noite desta quarta-feira, 31, a sinopse do enredo “Hutukara”, um brado de alerta em defesa da Amazônia e, em especial, da etnia Yanomami, que vem sofrendo diversos ataques por parte de mineradores que exploram os rios daquela região, no Norte do País.

Segundo o carnavalesco Edson Pereira, autor e responsável pelo Carnaval que o Salgueiro levará para a Avenida, “Hutukara” (a floresta reconstruída dos Yanomami) será “uma flecha para tocar o coração da sociedade não indígena”. A apresentação aconteceu na quadra da Escola, no Andaraí, com a presença de todos os segmentos e dos compositores que participarão do concurso do samba-de-enredo.

Leia o texto na íntegra.

SINOPSE

Há mais de mil anos, os Yanomami vivem na maior Terra Indígena (TI) do país, em um território ao norte do Brasil e sul da Venezuela, nos estados do Amazonas e Roraima, nas bacias do Rio Negro e do Rio Branco. Ou seja, quinhentos anos antes dessas duas nações existirem, eles já estavam lá. Viver na floresta é um ofício que requer uma sabedoria ancestral, não fabricada em laboratório, nem encontrada nas páginas dos livros do “povo da mercadoria”. Viver na floresta como Yanomami é ser parte dela. É conviver com seres humanos e não humanos, animais, plantas, vento, chuva e milhares de espíritos.

“Omama recriou a floresta, pois a que havia antes era frágil. Virava outra sem parar, até que o céu desabou sobre ela. Por isso, Omama criou uma nova floresta, mais sólida, cujo nome é Hutukara

Davi Kopenawa – A queda do céu

Entre em transe. Sonhe

Sob o luar de um anoitecer, todos se deitam em redes e iluminam o breu, numa aldeia sem luz elétrica, com lanterninhas e pequenas fogueiras que ajudam a amenizar o ar gélido da madrugada amazônica. A nossa noite, porém, é o seu dia. Sob o efeito da yãkoana, pó alucinógeno feito das raspas de árvores que dá acesso aos espíritos, os xamãs da aldeia convocam os xapiris. Eles vêm com seus corpos translúcidos, sempre belamente adornados e brilhantes. Só quem os conhece pode vê-los porque são muito pequenos e brilham como a luz. Há muitos, muitos, milhares deles. Xapiri é luz que dança e canta.

Ãë, ãë, ãë, e, e, e, e, e, ãë, ãë, ãë, ãë!

Os cantos dos xapiris são tão numerosos que suas palavras são inesgotáveis. Eles aprendem tais melodias a partir das árvores de cantos. São árvores imensas, com troncos cobertos de lábios que se movem sem parar, uns em cima dos outros. Dessas bocas saem cantos belíssi- mos, tão abundantes quanto as estrelas do peito do céu. Todos os cantos dos espíritos provêm dessas árvores muito antigas. Esses espíritos ancestrais foram criados por Omama para que os Yanomami pudessem se vingar das doenças e se proteger da morte. Os xapiris são os protetores dos humanos e de seus filhos, independentemente de quantos sejam, e da floresta. Eles garantem a todos nós, indígenas e não indígenas, a certeza de que o sol nascerá no dia de amanhã e que o céu não desabará sobre a nossa cabeça.

Vislumbramos o sol do alvorecer. Céu azul, corpos pintados de vermelho. Coberta de palha e folhas, com uma praça de terra batida ao ar livre, o povo da aldeia parte para a caça e a coleta da pupunha, ingrediente principal do seu “mingau”. Eles usam arcos e flechas. Elas pegam seus cestos, seus facões, seus bebês e seguem para a roça. Aventuram-se mata adentro, com corpos imitando animais, procurando alimentos, seguindo cada rastro: abe- lhas comem no jatobá-roxo, jacarés passeiam pelas águas, a sumaúma impõe majestade e os perfumes exalam do fundo da selva. Flecham os animais, pescam os peixes. Mais tarde, chegarão com tatus, mutuns, jabutis, antas… Convidam uns aos outros, de casas diferentes, para dançar durante suas grandes festas reahu.

Mas ouvem-se roncos. Estrondos. Militares estão raspando a pele da terra-mãe para a cons- trução de estradas. A floresta é cortada em pedaços, feito retalho. Os garimpeiros, “come- dores de terra”, chegaram. Para os Yanomami, as coisas que se extraem das profundezas da terra, como ouro e petróleo, são artifícios maléficos, perigosos, impregnados de tosse e febre. Omama escondeu o minério embaixo da terra para que o criador da morte, não fizesse mal uso dele. Apesar da prudência de Omama, Yoasi fez com que os não indí- genas soubessem desses metais, despertando a cobiça dos invasores.

O que fazem os brancos com todo esse ouro? Por acaso, eles o comem?

Enquanto reviram a terra para tirar de lá as lascas do céu, da lua, do sol e das estrelas que caíram no primeiro tempo, a fumaça xawara da doença se espalha: a água fica barrenta; rios são destruídos; animais desaparecem… A terra é demarcada, mas nem por isso protegida. Nada será forte o suficiente para restituir o valor da floresta doente. Nenhum dinheiro poderá devolver aos espíritos o valor de seus pais mortos.

O ronco dos motores para ao anoitecer. É aí que se ouve um ruído pior: o das crianças chorando de fome!

Em meio à essa tragédia, precisamos admirar a beleza e a força deles. Para os inimigos dos povos indígenas, o extermínio dos Yanomami passa pela destruição dessa beleza, passa pelo esquecimento de quem são. Porque é reconhecendo a beleza, a cultura, a memória, a sua própria língua, que os Yanomami afirmam a sua humanidade no mundo. Apaixonemo- -nos por esse povo, por sua maneira particular de contar histórias. O respeito só pode nascer da admiração, não da pena. Afinal, o genocídio visto hoje mostra mais quem são os napë (não indígenas) do que quem são os Yanomami.

Assim como os sonhos Yanomami que surgem quando as flores da árvore dos sonhos desabrocham, sonhemos com um Brasil indígena. Os Yanomami não apenas pensam sobre seus sonhos, eles sonham aquilo que pensam, ampliando e moldando sua forma de conhecer e imaginar o mundo. De Norte a Sul, do Nordeste ao Sudeste, por toda a terra-floresta até os limites da Hutukara, os sonhos dos diversos povos originários continuarão desabrochando em nós e seguiremos sendo resistência. Antes do verde e amarelo, existia o Brasil do jeni- papo e do vermelho. Antes da Coroa, existia (e ainda existe) o Brasil do cocar. Não conheceremos o Brasil antes de vislumbrar e respeitar a história indígena. Precisamos sonhar verdadeiramente a nossa terra.

E, aos inimigos dos povos indígenas, responderemos (em Yanomami):
YA NOMAIMI! YA TEMI XOA!
(Eu não morro! Ainda estou vivo!)
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